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Revoluções de Ano Novo

Estamos carecas de ouvir falar sobre as resoluções de ano novo, aquela famosa e fatídica listinha onde enumeramos nossos desejos e objetivos para o ano que se inicia. Resolução, inclusive, significa isso: decisão. Porém, estamos igualmente carecas de saber que, na maioria das vezes, tais resoluções sequer chegam a sair do papel no qual foram escritas, principalmente porque a) são absolutamente irreais e, se não impossíveis, improváveis ou b) não dependem somente de nós. Assim sendo, neste ano sugiro que façamos também uma segunda lista, de revoluções. Mas calma. Não me refiro a nenhum levante armado ou revolta, nada de hastear bandeiras e destruir vitrines, é sem motim e sem quebradeira. Porque falo de revolução no sentido de movimento, reforma, renovação. E não há nada, absolutamente nada que possamos movimentar, reformar e renovar que não seja a nós mesmos. Sim, estou falando da temida revolução interior, onde o aliado e o inimigo se resumem àquela criatura que observamos refleti...

Conquista e privilégio

Conquista e privilégio são dois conceitos que costumam ser confundidos, e é esta confusão a raiz de muitos de nossos problemas enquanto país. Na conquista, você precisa correr atrás, se mexer, sair da zona de conforto, arriscar, batalhar para conseguir. No privilégio, não. No privilégio, você só precisa existir. Por exemplo: quando arrumamos nosso quarto, obtemos uma conquista, que é um quarto arrumado pra gente dormir. Se não tivéssemos arregaçado as mangas e disponibilizado nosso tempo para limpar o quarto, agora não teríamos um quarto limpo. Mérito nosso. Porém, não poderíamos limpar o quarto se não tivéssemos um quarto para limpar. O quarto é o privilégio. A faxina, o mérito. Ocorre que muitas pessoas altamente privilegiadas, por comodismo ou vaidade, julgam que tudo o que são e possuem vêm do suor de seu esforço. Que tudo é questão de merecimento. Misturam seus privilégios com suas conquistas, sem entender que é infinitamente mais fácil conquistar quando se tem privilégios. ...

“O Duplo da Terra” em sala de aula!

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O Duplo da Terra , meu terceiro livro, traz encartado em sua edição um suplemento literário com sugestões de atividades para realização em sala de aula, envolvendo desde criação de textos, ilustrações e fotografias, até teatro, colagem, debate e produção musical. Neste ano, a professora Dheyni Barimaker da Silva, da Escola Amélia Lenzi Raymundi , de Sananduva/RS, trabalhou o livro com seus alunos, e eu estou como? Coberta de alegria da cabeça aos pés. De que outro jeito poderia estar? Já agradeci pessoalmente e por vídeo, mas nunca é demais: obrigada, profe e gurizada querida, pela oportunidade de participar e estar junto com vocês em sala de aula – sala de aula que, aliás, é o habitat natural de todo livro.

Lugar de cultura

Cultura na Praça era o nome do evento organizado por David Faria, Bianca Zachert e André Nascimento – que, como o próprio nome sugere, deveria acontecer na praça central de Carazinho durante a tarde do dia 10 de novembro de 2018, reunindo exposições de arte e música. No dia 8, 48h antes, os organizadores foram informados de que não poderiam realizar o evento na praça, já que aconteceria outro evento da prefeitura ali, marcado para o mesmo dia, local e horário. Assim, transferiram o Cultura na Praça para a Gare, um lugar bem legal, porém sem árvores, grama e nem sombra. A previsão marcava 35 graus para aquela tarde, e a maioria dos artistas e expositores confirmados foi pego desprevenido, precisando correr de última hora atrás de gazebos, guarda-sóis ou qualquer coisa capaz de proteger do sol furioso. Eu fui um destes artistas, e como não arrumei gazebo e nem guarda-sol, acabei participando apenas como público. O evento estava lindo, mas o calor judiou. Alguns artistas enfrentaram...

O Ritmo do Mundo

O céu de nuvens carregadas e cinzas Misturava-se ao rio de águas tão escuras quanto cristalinas. Fundiam-se no horizonte formando uma sinfonia fina Tão sombria, tão linda, tão fria. O sol se escondia Não dava para saber a hora Mas era algo entre o meio e o fim do dia. Era mais ou menos assim que acontecia. Lembro que tinha ventania. O vento vindo do leste ventava como se nada houvesse Como se tudo bem estivesse Como se não vivêssemos sem nenhum alicerce Como se ainda seguíssemos algum mestre. O vento ventava e não se importava Não poupava, não parava, não cansava Levando o que encontrava até as nuvens carregadas Lá no céu, que alcançava o fim. Sem se abalar com as rajadas pesadas O vento também ventava em mim. O varal esforçava-se para os lençóis segurar Os tecidos dançando sem cadência ou resistência, naquela malemolência a bailar Suas cores contrastavam com o acinzentado do rio, do céu, da rua, do mundo, de todo lugar. Ali eu soub...

Esclarecendo a escuridão

Sou a responsável pelo Nascedouro , selo da Editora Os Dez Melhores que publica livros escritos por crianças e adolescentes. De 2013 pra cá, publicamos sete livros contendo textos e desenhos de mais de 240 estudantes do interior do Rio Grande do Sul. Logo, participei diretamente de sete lançamentos, e cada um foi especial e inesquecível à sua maneira. Porém, nosso mais recente lançamento, a obra “ Jovens Escritores Brasileiros Vol. 2 ”, que aconteceu no dia 14 de novembro de 2018 em Sananduva/RS, foi particularmente especial e inesquecível, devido ao contexto que experimentamos agora, enquanto país e enquanto cidadãos. Enquanto coletivo e enquanto indivíduos. Vivemos tempos de crise generalizada, disso ninguém duvida. O colapso não é apenas político e econômico, mas moral e estrutural. A falência da sociedade que conhecíamos revelou o que de pior existe no ser humano: violência, fanatismo, intolerância. Algo sem precedentes em nossa história. Uma espécie de guerra ideológica, cu...

Eu, de esquerda?

Eu escrevo crônicas desde 2004. Sempre tive blog, e também já publiquei em sites, revistas, livros e jornais ao longo dos anos. Em 2018, lá se vão cinco primaveras que escrevo quinzenalmente para o jornal O Informativo Regional, de Sananduva/RS, e pelo menos dois anos que mantenho uma coluna no jornal A Folha, de Não-Me-Toque/RS. Não sou capaz de contar quantas crônicas já escrevi na vida, mas foram algumas centenas. Nestes textos, desde os primeiros até os últimos, sempre procurei refletir o meu tempo, como ensinou Nina Simone, abordando temas pertinentes à nossa realidade. De modo que, quem já leu pelo menos cinco crônicas minhas, sabe que racismo, machismo, homofobia e direitos humanos são assuntos recorrentes em meu trabalho. Tem política em cada caractere que eu digito. Apesar disso, jamais me posicionei a favor de um partido ou de um determinado candidato, bem pelo contrário. Sempre deixei claro que, não importa quem está no poder, eu sou contra, inclusive e principalmente se...