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Contra-Ataque Underground

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Quando eu tinha uns 10 anos eu e meu primo Leandro “editávamos” uma revista chamada “Gatos Contra-Atacam”. Era uma revista de histórias em quadrinhos que girava em torno de dois gatos chamados Minhau e Minhaula, que eram irmãos e se metiam em mil aventuras, haha. Havia vários outros personagens, e a revistinha teve muitas edições. Tenho os originais guardados até hoje. Eu fazia tudo à mão com caneta, e depois tirava xerox, grampeava e vendia pra família. Sim, eu VENDIA. Meus pais, tios e avós inclusive tinham uma assinatura e recebiam edições mensais, HAHAHA. Sensacional! (A propósito: obrigada, família!). O fato é que a primeira coisa que pensei em ser quando crescer foi “dona de uma revista”. Eu nem sabia direito o que isso significava, mas era o meu plano A. Quando eu finalmente cresci, parei de produzir os gibis dos “Gatos Contra-Atacam”, mas a ideia da revista nunca saiu da minha cabeça. Ficou ali engavetada, guardadinha no meu sótão mental em um lugar de fácil acesso. Port...

Perguntas, eu tenho

A maioria das religiões costuma exigir de seus seguidores a certeza absoluta. Não é permitido duvidar, sob o risco de ofender a deus. Quem questiona não tem fé, não é fiel. Justamente por isso, nenhuma religião conseguiu me atrair em meus 32 anos de vida. Porque eu sou uma pessoa cheia de dúvidas, e não aceito respostas prontas e superficiais para os meus muitos questionamentos. “Por que sim” nunca foi resposta pra mim. Entendo que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e que sequer temos condições mentais e emocionais de entender a magnitude do todo; mas ainda prefiro ficar sem respostas a ter de engolir respostas simplórias para perguntas complexas. Recuso-me a me submeter a regras que não compreendo. A questão é que muitas pessoas precisam de uma religião para se manter na linha. Não conseguem formar, sozinhas, o seu próprio código de conduta, e por isso necessitam da religião para dizer o que é certo e o que é errado. Precisam integrar um rebanho, ...

Sótão mental

“Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que, para cada nova entrada de conhecimento, a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Consequentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis”. (Sherlock Holmes, no livro “ Um Estudo em Vermelho” ...

O cabresto da multidão

Quando decidi virar escritora eu tinha uns 17 anos, e foi quando comecei a escrever meu primeiro livro. Naquela época, minha ideia era atrair o maior número possível de leitores. Quanto mais, melhor. Esta era a lógica, o óbvio, o único caminho. Somente assim eu poderia me considerar uma escritora de verdade, pensava eu. No entanto, hoje, se aparecesse na minha frente o gênio da lâmpada e me dissesse: “quer ter milhares de leitores agora?”, eu responderia com convicção: não, obrigada. Porque há uma censura na massa que me apavora. Quando a multidão se manifesta, através da voz coletiva também conhecida como Opinião Pública, geralmente é com fúria e opressão, julgamento e condenação, fanatismo e alucinação. Eu acompanho alguns escritores contemporâneos de relevância, com um número considerável de leitores e fãs, e fico horrorizada com os comentários que leio nos textos que eles publicam na internet. Agressão, ameaça, desrespeito, deboche, violência, é tudo comum. Atacam o escritor...

Minha avó é negra

Esta é uma frase que costuma surpreender, e às vezes até chocar, quem a escuta, visto que sou branca, loira, de olho azul. Mas, sim, minha avó é negra, assim como minha bisavó. Eu poderia ter nascido negra. No entanto, minha bisavó e minha avó tiveram filhos com homens brancos, e por um mero detalhe genético eu nasci branca. Obviamente não sofro racismo. Nunca sofri, nunca sofrerei, e sinceramente não posso sequer imaginar o que é ser discriminado e agredido por conta da quantidade de melanina em sua pele. Contudo, mesmo que ninguém possa ver, o sangue que corre nas minhas veias é negro também. E dele eu me orgulho muito, mais do que as palavras conseguem expressar. Por isso, considero a luta contra o racismo uma luta que me pertence. Afinal, minha avó e minha bisavó experimentaram o gosto amargo do preconceito racial. Sofreram ofensas, abusos, xingamentos, humilhações; foram violadas, negligenciadas, silenciadas. Debocharam de seus cabelos, de suas roupas, de seus sorrisos, de ...

A liberdade de nada ter

Certa vez li em um livro, cujo nome não me lembro, que só é possível ser livre de verdade quando você não possui nada. Família, emprego, relacionamentos, religião, carro e boleto: são todos meios de nos prender. A família te segura, o emprego te disciplina, o relacionamento te cobra, a religião te vigia e pune, os bens de consumo te consomem. Não questiono aqui o lado bom da família, do emprego, dos relacionamentos, do consumo e da religião, que é óbvio que existe. Mas quero apontar um problema que, de uns tempos pra cá, bateu na minha cara com toda a força: somos prisioneiros da nossa própria vida. Fazemos escolhas que, ao invés de nos libertar, nos encarceram. Caminhamos pé por pé até uma cela pequena e limitada, e por livre e espontânea vontade entramos, trancamos a porta e jogamos a chave ralo abaixo. Somos uma fábrica de cadeados, que usamos para prender nossos próprios punhos. Todavia, é importante observar: até que ponto nós realmente fazemos escolhas? Quantas das decisões ...

Os Magníficos e a Ralé

Recentemente, o Clovis Ravizoni, editor do jornal "O Informativo Regional", publicou no Facebook a notícia de que 50 casas foram queimadas, e mais de 300 índios foram expulsos de uma reserva em Charrua. Como geralmente acontece, os comentários sobre a notícia foram de perder a fé na humanidade: algumas pessoas reagiram à publicação rindo. Uma moça sugeriu que sua amiga, que defende as minorias e mora em uma casa grande, levasse os índios para lá. Tânia achou tudo muito engraçado, e escreveu “Hahaha”. Já Nathan recomendou que “fincassem fogo”, e ainda ordenou: “quem tá com pena que adote”. O Douglas também participou, e afirmou que “só não fala o que pensa por que dá cadeia”. Lá por 1930, um cara chamado Adolf, de sobrenome Hitler, também pensava assim. Para ele, os judeus eram o problema da Alemanha. Mas não só os judeus: os ciganos, os negros, os latinos também. Na verdade, qualquer um que não fosse alemão. Para Adolf, só ele e os alemães prestavam; o resto era escória, e...