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Mostrando postagens de outubro, 2017

Contra-Ataque Underground

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Quando eu tinha uns 10 anos eu e meu primo Leandro “editávamos” uma revista chamada “Gatos Contra-Atacam”. Era uma revista de histórias em quadrinhos que girava em torno de dois gatos chamados Minhau e Minhaula, que eram irmãos e se metiam em mil aventuras, haha. Havia vários outros personagens, e a revistinha teve muitas edições. Tenho os originais guardados até hoje. Eu fazia tudo à mão com caneta, e depois tirava xerox, grampeava e vendia pra família. Sim, eu VENDIA. Meus pais, tios e avós inclusive tinham uma assinatura e recebiam edições mensais, HAHAHA. Sensacional! (A propósito: obrigada, família!). O fato é que a primeira coisa que pensei em ser quando crescer foi “dona de uma revista”. Eu nem sabia direito o que isso significava, mas era o meu plano A. Quando eu finalmente cresci, parei de produzir os gibis dos “Gatos Contra-Atacam”, mas a ideia da revista nunca saiu da minha cabeça. Ficou ali engavetada, guardadinha no meu sótão mental em um lugar de fácil acesso. Port

Perguntas, eu tenho

A maioria das religiões costuma exigir de seus seguidores a certeza absoluta. Não é permitido duvidar, sob o risco de ofender a deus. Quem questiona não tem fé, não é fiel. Justamente por isso, nenhuma religião conseguiu me atrair em meus 32 anos de vida. Porque eu sou uma pessoa cheia de dúvidas, e não aceito respostas prontas e superficiais para os meus muitos questionamentos. “Por que sim” nunca foi resposta pra mim. Entendo que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e que sequer temos condições mentais e emocionais de entender a magnitude do todo; mas ainda prefiro ficar sem respostas a ter de engolir respostas simplórias para perguntas complexas. Recuso-me a me submeter a regras que não compreendo. A questão é que muitas pessoas precisam de uma religião para se manter na linha. Não conseguem formar, sozinhas, o seu próprio código de conduta, e por isso necessitam da religião para dizer o que é certo e o que é errado. Precisam integrar um rebanho,

Sótão mental

“Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que, para cada nova entrada de conhecimento, a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Consequentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis”. (Sherlock Holmes, no livro “ Um Estudo em Vermelho”

O cabresto da multidão

Quando decidi virar escritora eu tinha uns 17 anos, e foi quando comecei a escrever meu primeiro livro. Naquela época, minha ideia era atrair o maior número possível de leitores. Quanto mais, melhor. Esta era a lógica, o óbvio, o único caminho. Somente assim eu poderia me considerar uma escritora de verdade, pensava eu. No entanto, hoje, se aparecesse na minha frente o gênio da lâmpada e me dissesse: “quer ter milhares de leitores agora?”, eu responderia com convicção: não, obrigada. Porque há uma censura na massa que me apavora. Quando a multidão se manifesta, através da voz coletiva também conhecida como Opinião Pública, geralmente é com fúria e opressão, julgamento e condenação, fanatismo e alucinação. Eu acompanho alguns escritores contemporâneos de relevância, com um número considerável de leitores e fãs, e fico horrorizada com os comentários que leio nos textos que eles publicam na internet. Agressão, ameaça, desrespeito, deboche, violência, é tudo comum. Atacam o escritor

Minha avó é negra

Esta é uma frase que costuma surpreender, e às vezes até chocar, quem a escuta, visto que sou branca, loira, de olho azul. Mas, sim, minha avó é negra, assim como minha bisavó. Eu poderia ter nascido negra. No entanto, minha bisavó e minha avó tiveram filhos com homens brancos, e por um mero detalhe genético eu nasci branca. Obviamente não sofro racismo. Nunca sofri, nunca sofrerei, e sinceramente não posso sequer imaginar o que é ser discriminado e agredido por conta da quantidade de melanina em sua pele. Contudo, mesmo que ninguém possa ver, o sangue que corre nas minhas veias é negro também. E dele eu me orgulho muito, mais do que as palavras conseguem expressar. Por isso, considero a luta contra o racismo uma luta que me pertence. Afinal, minha avó e minha bisavó experimentaram o gosto amargo do preconceito racial. Sofreram ofensas, abusos, xingamentos, humilhações; foram violadas, negligenciadas, silenciadas. Debocharam de seus cabelos, de suas roupas, de seus sorrisos, de

A liberdade de nada ter

Certa vez li em um livro, cujo nome não me lembro, que só é possível ser livre de verdade quando você não possui nada. Família, emprego, relacionamentos, religião, carro e boleto: são todos meios de nos prender. A família te segura, o emprego te disciplina, o relacionamento te cobra, a religião te vigia e pune, os bens de consumo te consomem. Não questiono aqui o lado bom da família, do emprego, dos relacionamentos, do consumo e da religião, que é óbvio que existe. Mas quero apontar um problema que, de uns tempos pra cá, bateu na minha cara com toda a força: somos prisioneiros da nossa própria vida. Fazemos escolhas que, ao invés de nos libertar, nos encarceram. Caminhamos pé por pé até uma cela pequena e limitada, e por livre e espontânea vontade entramos, trancamos a porta e jogamos a chave ralo abaixo. Somos uma fábrica de cadeados, que usamos para prender nossos próprios punhos. Todavia, é importante observar: até que ponto nós realmente fazemos escolhas? Quantas das decisões

Os Magníficos e a Ralé

Recentemente, o Clovis Ravizoni, editor do jornal "O Informativo Regional", publicou no Facebook a notícia de que 50 casas foram queimadas, e mais de 300 índios foram expulsos de uma reserva em Charrua. Como geralmente acontece, os comentários sobre a notícia foram de perder a fé na humanidade: algumas pessoas reagiram à publicação rindo. Uma moça sugeriu que sua amiga, que defende as minorias e mora em uma casa grande, levasse os índios para lá. Tânia achou tudo muito engraçado, e escreveu “Hahaha”. Já Nathan recomendou que “fincassem fogo”, e ainda ordenou: “quem tá com pena que adote”. O Douglas também participou, e afirmou que “só não fala o que pensa por que dá cadeia”. Lá por 1930, um cara chamado Adolf, de sobrenome Hitler, também pensava assim. Para ele, os judeus eram o problema da Alemanha. Mas não só os judeus: os ciganos, os negros, os latinos também. Na verdade, qualquer um que não fosse alemão. Para Adolf, só ele e os alemães prestavam; o resto era escória, e

O Tempo

O tempo é algo valioso. Não percebemos isso até que o perdemos: com discussões inúteis, com trabalhos maçantes, com pessoas incompatíveis, com batalhas impossíveis de vencer. Seguimos desperdiçando nosso tempo como se ele fosse infinito, interminável, eterno. Mas, de repente, quando nos damos por conta, há mais tempo no passado do que no futuro. É a fatídica hora de olhar pra trás e ver o que diabos fizemos com os nossos dias. E quando esta hora chegar pra mim, eu não quero lamentar. Dito isto, e consciente de que o tempo é tão valioso quanto finito, informo a quem interessar possa que este é meu novo blog. Criei meu primeiro em 2008, e de lá não saí mais. No antigo blog da Jana estão meus trabalhos iniciais como escritora e editora, minhas opiniões tortas de anos atrás, minhas percepções, distrações, elucubrações. Eu tinha 23 anos quando criei este blog, então calcule quantas Janaínas eu fui enquanto o enchia de conteúdo e caracteres. Mas algo se manteve intacto durante todos